Cinquenta Anos Depois

Ainda me lembro… Em certa manhã de janeiro de 1938, levando comigo os comprovantes de concluinte do curso ginasial, transpus a ampla porta da faculdade para me inscrever no curso pré-médico. Este foi talvez o momento mais decisivoda minha vida. Ficará para trás, com uma pontinha de saudade, o longo curso ginasial de cinco anos e com ele toda a minha adolescência.

O curso pré-médico era um período preparatório para o que pretendiam ingressar-se na Faculdade de Medicina… Tinha a duração de dois anos. Excessivamente rigoroso, o número de pretendentes, quase sempre elevado, reduzia-se acentuadamente após os exames de seleção. Éramos, no início, quase duas centenas de sonhadores, mas a porta estreita do vestibular reduziu para pouco mais de cinquenta os que pretendiam chegar ao Doutorado em Medicina. Era uma luta desigual, porque nem sempre o bom preparo da matérias, que julgávamos essenciais como a Química, a Física, a Botânica e a Zoologia, conseguia vencer a barreira quase intasponível do gogmatismo com que era exigido o estudo teórico da Matemática, nas variações infinitas de teoremas, postulados e axiomas.

Hoje, estou absolutamente convencido que muitas e verdadeiras vocações médicas se perderam, em virtude daquela exigência inexplicável e descabida. Era dar-se menos valor e ênfase as matérias afins, em razão de uma matéria de ouca ou quase nenhuma afinidade coma Ciência Médica. O vestibular, em si, já constituia uma seleção, mas a matemática era uma excrescência, uma bismo que devorou muitos sonhos  e muitos talentos promissores…

Ao iniciar o meu cruso médico, a faculdade era, pra mim, uma mundo estranho. Em cada professor eu via o espectro de uma Ferrabrás, senhor absoluto do presente, do futuro e do destino de cada um de nós. Mas já estava escrito nas entrelinhas da minha vida que aquela era a minha estrada, estreita ou larga, plana ou acidentada, era seguir e seguir sempre. Não era eu quem caminha ao encontro do futuro, mas o destino, essa força misteriosa que dirige todos os que um dia se vêem ante as portas do paraíso ou do desencanto.

A minha primeira aula de Anatomia Humana, com que iniciei o curso médico, apesar de me trazer aquela alegria desejada, não foi azul nem cor-de-rosa, mas de tonalidade sombria. Cheio de dúvidas, eu me perguntava: “Será este o momento a que sempre e imaginei?” Eu acabava de reler uma longa carta de meu pai, em reposta àquela em que lhe cientificava o meu ingresso na faculdade. Homeminteligente, com um senso prático e apurado da vida, ele me dizia:

“Este é , certamente, o mais importante momento de sua vida, porque crio que se lhe abriam as portas do futuro. Mas não se esqueça de estará sempre ante um desafio constante, desafio atudo e a todos. Mas gira o seu caminho… A própria vida lhe mostraá novos mundos, novas formas de vidas, novas promessas de viver…”

Naquele tempo em que transpor as portas de uma faculdade era mais que uma vitória, eu me fiz universitário. Embora sem muito destaque e nenhum brilho, não foi sem orgulho e vaidade que vesti a indumentária tão desejada por muitos – o tradicional avental branco-, que na época era o símbolo da nobraza acadêmicam e cujo pode mágico nos abria as portas do mundo social e nos conferia status de futuros médicos. E assim, com relativa provisão de sonhos e inquietações, iniciei a minha caminhada…

Comecei a vida acadêmica como todos começaram… Sentados no anfiteatro da faculdade, ovíamos diariamente as aulas de Anatomia Humana e Fisiologia.  Aos poucos, o tempo e a convivência se encarregaram de aglutinar e consolidar as amizades.

Éramos cinquenta e seios, os remanscentes da “vestibulanda” devastação, os que iam constituir a turma de 1945. Creio que não foram muiras as turmas que deixaram, na velha faculdade, uma tradição tão firme de unidade sentimental e de convivência afetiva quanto a minha. Amizade que perdura por meio século e sempre renovada de cinco em cinco anos. Vivendo e convivendo as mesmas emoções, as mesmas preocupações, as mesmas incertezas, sentido a intensidade das emoções nas horas da derrota e da vitória, da alegria e da tristeza, tudo isso constituiu, certamente , o elo dessa amizade duradoura, ainda presente no tempo.

Embora vivêssemos, naqueles anos, os mais trágicos momentos para o mundo, diante da guerra devastadora e do mais monstruoso genocídio que a humanidade presenciou, nós vivíamos intensamente a vida acadêmica. As nossas inquietações não estavam lá, nos campos de batalha, mas nas páginas frias da Anatomia Humana, nos compêndios de Fisiologia, na Técnica Operatória, na anatomia Patológica, Clínica Médica. Ali era o nosso mnudo, a batalha sem trégua entre o tempo e o extenso currículo médico.

Bons tempos!… Vivíamos sob um clima de fraternidade e coleguismo. Somente nos dias de exames é que tomávamos consciência da realidade e de que nem tudo era azul, “no melhor dos mundo possíveis”, com dizia Voltaire. Entretanto, passada a tempestade, céu desanuviado, voltamos a viver a tranquilidade da vida acadêmica. É certo que do ponto de vista econômico e social, éramos desiguais, cada qual carregava os seus próprios problemas e suas inquietações, mas ninguém servia-se de sua nobreza social ou de privilegiada situação econômica para orgulhar-se delas. acima de tudo estava o sentimento de coleguismo sem discrimições e preconceitos.

Feliz a geração que pode viver o sentimento da amizade, quando irmanada nas mesmas esperanças e nos mesmos ideais, como símbolo de uma mundo melhor, onde os sinos da fraternidade podem, e cada dia e cada hora; anunciar que o amanhã será certamente a aurora de uma consciência universal mais justa e mais fraterna…

Naquela época, a faculdade reunia no seu corpo docente os nomes mais ilustres da Ciência Médica em Minas Gerais. No exercício da Cátedra, todos eles se faziam respeitar pelo saber e pela honorabilidade no magistério.

Hoje, 50 anos depois, ainda tenho presente na memória a silhueta física e individual de todos os meus professores. Todos eles conquistaram o direito à nossa amizade, admiração e respeito, como homens, como médicos e como mestres. Não há escala de valores, porque cada um deles tinha o seu próprio valor, seus méritos, seus pecados venais e a sua filosofia de comportamento e de trabalho.

Não seria possível destacar nomes em grau de valor. Cada um possuía a sua peculiaridade na arte de bem ensinar. Osvaldo de Melo Campos e Alfredo balena eram inteligências disciplinadas pelo método, pelo estudo e pela primorosa didática. Caio Benjamim Dias, a despeito de ainda moço no exercício do magistério, levou para a escola um exemplo de dedicação e de cultura médica solidamente trabalhada. Adelmo Lódi, fechado, introvertido, rigoroso nas notas prestou a nós todos relevante serviço, porque nos ensinou medicina e sobretudo, a estudar. Hilton Rocha não foi apenas um mestre brilhante da oftalmologia, de conceito internacional, possuía uma didática límpida e absorvente; falava com extraordinário desembaraço e elegância, e deixou, no meio cultural e das letras, uma tradição de excelente orador. Baêta  Viana era um professor versátil, de cultura polimorfa e de conhecimentos variados. De sólida e extensa formação científica, as suas aulas não tinham limites, iam, às vezes, além do preestabelicido no currículo médio. Rivadávia Gusmão tinha os seus grande e pequenos dias. Possuidor de uma voz forte e bem timbrada, era um orador nato, de elegante precisão vocabular. Nos dias de arroubos oratórios, assumia insconscientemente atitudes “demostências”…

Clóvis salgado: Convivi com esse ilustre professor os três úlmos anos de meu curso médico, como interno residente de sua carteira de ginecologia. No trato da arte de bem operar, foi uma das raras vocações cirúrgicas que conheci. Operador elegante e de técnica apuradíssim, dominava com facilidade, precisão e eficiência não apenas a cirurgia ginecológica, mas também a cirugia geral, onde tinha incursão livre em qualquer terreno. O Prof. Clovis Salgado deixou, para as tradições acadêmicas, exemplo de uma das mais altas expressões da cirurgica ginecológica, Não foi apenas médico militante na profissão e no magistério, mas também um idealista e admirador das bela-artes. E dessa manifestada sensibilidade artística e admiração para coisas nobres, ele deixou o testemunho na concretização da Cruz Vermelha e na Fundação que recebeu o seu nome.

Entre os nossos professores, dois merecem especial referência, não por serem maiores ou menores, mas pela excentricidade que marcava a personalidade de cada um deles. Eu me refiro aos professores Otávio Magalhães e Lopes Rodrigues.

O primeiro era, antes de tudo, figura simpática, de uma simpatia imponente. Considerava-se filho espiritual e cultural de Osvaldo Cruz. Tudo nele fazia lembra o homem que um dia salvou o Brasil da peste e da febre amarela. Realmente, o prof. Magalhães era a réplica do grande sanitarista brasileiro, tanto na estatura, como na postura. Possuía, também, a mesma vasta cabeleira branca, da qual sobressaía discreto e legante topete, que lhe dava imponência e altivez. Ministrava as sua aulas sempre em pé, de cabeça erguida com com que procurasse, com os olhos, algo perdido no além. Numa linguagem grandiloquente, intercortada de arroubos oratórios, doutrinava sobre dois assuntos de sua especial predileção: O  choque anafilático e a teoria da imunidade  pelas cadeia laterais. Todos nós, sem exceção, antigos e presentes estudávamos numa famosa coletânea, organizada em época desconhecida, por um aluno de nome Las Casas. Era a nossa bíblia. Embora nunca tivera sido atualizada, possuía valor inestimável e sempre disputada por todos, porque ali estavam as mesmas continuadas aulas ministradas ipsis berbis, anos após anos, sem lhes tirar ponto e vírgula.

Creio que todos que por ali passaram não se esqueceram certamente daqueles momentos verdadeiramente emocionates, cujas frases retumbantes eram guardadas na memória e citadas por todos nós como exemplo de grandiloquência oratória…

O professor Lopes Rodrigues ocupava a cadeira de psiquiatria. Era um tanto excêntrico, de temperamento ciclotímico. Verboso e impotente. Em suas aulas falava-se de tudo, e muito pouco de psiquiatria. Ao longo do ano letivo, não ministrou mais que meia dúzia de aulas, rápidas mas fulgurantes. Se pouco ensinava, nada exigia. Jamais reprovou um aluno. Era, entretanto, extraordinariamente inteligente. Não dominava apenas a sua especialidade, possuía apreciável cultura humanística. Deixou para literatura nacional, o mais completo estudo biográfico de Castro Alves, de quem confessava o maior e o mais consciente dos seus admiradores. Numa obra extensa de quase 1500 páginas, em 3 volumes, analisou, em todos seus aspectos, a obra ea vida do celebrado poeta baiano, num confronto com a literatura nacional e estrengeira. No percurso da sua obra, ricamente marcada por numerosas citações sobre Goethe e Schiller, no seu próprio idioma.

Nada sei quanto à sua produção científica, mas conheço a sua produção literária. Foi um escritos de estilo limpo, elegante e de apreciável riqueza vocabulária.

Mantinha quase sempre diálogos com alunos. Nas sua divagações em aula, demonstrava doentia veneração pelo professor Juliano Moreira, seu pai por adoção cultural, e a quem se referia como o maior dos psiquiatras brasileiros. Uma das suas excentricidades, estava em afirmar e contestar sempre em aula a ilegitimidade do júri popular, afirmando que cada um de nós traz consigo uma carga atávica, razão porque os loucos não podem julgar loucos.

É certo que não lhe faltou cultura para ser um grande mestre, mas lhe faltou vontade para ser uma grande professor.

Como todo universo humano, a nossa turma era heterogênea. cada um tinha a sua personalidade, a sua maneira de pensar, de agir e de comportar-se. Entre nós não havia gênios mas não foram poucos os que, na vida profissional, demostraram apreciável valor profissional e vocaçõa médica ao se projetarem no magistério superior, na cirurgia e na clínica médica, em várias especialidades. Posteriormente, muitos deles se encaminharam para outras atividades: o magistério superior, o empresariado, as finanças, a pecúária…

Sem preterição ou pretensão de destaque, citamos: Halley Alves Bessa: orador da turma. Como professor lecionou fisiologia nervosa, na Faculdade de Ciências Médicas, da qual foi um dos fundadores. Figura singular porque, emobra possuidor de excelentes e alicercados conhecimentos na sua especialidade, era uma almar recolhida na rua própria modéstia, e como pessoa humana era, a um tempo, discreto e fidalgo no tratar. Profundamente religioso, manteve por toda a existência a fé cristã. Como católico e espiritualista, só lhe faltavam o burel de São Francisco e a aréola de santidade para entrar no céu sem pedir licença.

Luiz Andrés Ribeiro de Oliveira: defendeu teses e exerceu a cátedra de técnica operatória, onde se houve com a mesma competência e dignidade de seus antecessores.

Para surpresa de muitos, uns poucos sonhadroes se desgarraram da realidade da vida e extrapolam os limites da Ciência Médica, promovendo-se a escritores e poetas, como “doublé” de médicos e literatos.

Geraldo Leite Dias: escritos de estilo agradável e leve, cuja produção literária se perdeu pela imcompreensão e incúriados menos afeiçoadores às letras. De tudo o que escreveu, creio que nos ficou apenas, como prova do seu talento literário, o conto intitulado: “Caboclo d’ água”, premiado em 1º lugar no 3º Concurso de Literário da Associação Médica de Minas Gerais e no 2º Concurso nacional de Contos da Associação Brasileira de Escritores.

João Henriques de Freitas Filho: médico de covação científica, cultivou o magistério secundário e superior. Laborou em vários Departamentos da Ciência Médica, exerceu as funções de assistente das cadeiras de Medicina Legal, Fisiologia e Anatomia Patológica, lecionou Patologia Geral da Faculdade de Ciências Médicas de Belo Horizonte; e foi assistente de cadeiras de Fisiologia e Antomia patológica na Universidade de São Paulo. Nos curso secundários, lecionou Matemática, Física, Ciências Naturasi e Biologia. Já na vida profissional, nos surpreeendeu como detentor de uma cultrua polimorfa. Escritor polígrafo, de sólida formação cultural, publicou livros gêneros variados, que vão do estilo leve, romanceados, aos temas sérios, de valor científico, no campo da experiências e das ciências médicas. Cultor da filosofia aristotélica, de formação escolática, possui uma inteligência em constante ebulição, irrequieta, ora em ato, ora em potência. Operário do pensamento, num constante adestramento do espírito pelo gosto à análise e a lógica demontrativa, buscou na dialética o caminho para explicar as coisas da vida, do espírito e do ser humano. Entre as suas publicações, destacamos os livros: Passos da vida e Metafísica da Universidade.

Diz ele em um dos seus livros: ” Há êxitos que se explicam, sobretudo pela oportunidade; há sucesos que se compreendem, acima de tudo pelas circunstâncias do momento”. Mas dele, João de Freitas, eu diria: ” O êxito e o sucesso não lhevieram pelas mãos da oportunidade nem das circunstâncias, mas pelo talento, pela dignidade dos seus atos no culto ao estudo das letras e da Ciência Médica”.

Clovis Alvim: era uma figura mais que singular, singularíssima… Elegante no vestir quanto no falar. Dotado de uma cabeça bem estruturada, possuía apreciável formação cultural. Não era apenas inteligente e culto, possuía também graça e ironia, qualidades que muito enriqueciam a sua personalidade simpática e atraente. Nunca nos disse de onde lhe veio o nome que ostentava com orgulho. Tenho, para mim, que foi um broto autêntico da ilustre estirpe de Cesário Alvim, a saga nobreza na política e nas letras brasileiras. Deixou um livro de contos, publicado por amigos e admiradores após sua morte. A sua prosa inteligente era sempre rica de crítica e bom humor. Por ocasião da festa em comemoração ao trigésimo ano de nossa formatura, escreveu e nos deixou uma página temperada de fino humor e de sabor literário. Embora sem a devida autorização forma, não posso deixar de transcrevê-la, em homenagem ao seu espírito crítico e à sua inteligência.

À margem do tempo

José Normanha de Oliveira